domingo, julho 28, 2013

História de vida de Manuel Joaquim Ferreira Vilela

Entrevistado: Manuel Joaquim Ferreira Vilela
Entrevistadora: Fátima Cerdeiral Vilela
Local da entrevista: Vila Real
Data da entrevista: 19 de maio de 2013

Identificação:
Nome: Manuel Joaquim Ferreira Vilela
Data de nascimento: 31.07.1957
Data de nascimento que consta no bilhete de identidade: 10.08.1957
Idade: 55 anos

Naturalidade:
Onde nasceu? Vila Meã - S. Tomé do Castelo
Local de nascimento: Vila Meã
Lugar da residência atual coincide com o lugar de nascimento ou não? Por quê?
Não coincide porque construi casa em Vila Real.
Como era a sua família? Muito honesta e trabalhadora.
Número de irmãos: Uma irmã.
A sua família tinha uma alcunha? Não.

Vida dos pais
Como se chamam ou chamavam os seus pais?
Pai: Manuel Joaquim Martins Vilela
Mãe: Maria de Lurdes Ferreira
De onde eram? Freguesia de S. Tomé do Castelo
Local de nascimento do pai: Vila Meã
Local de nascimento da mãe: Águas Santas
Sabe em que ano nasceram?
A minha mãe nasceu no ano de 1930. O meu pai não sei, pois morreu tinha eu 2 meses de vida.   
Sabe como eles se conheceram? Não.
Onde ficaram a viver? Vila Meã
Quantos filhos tiveram? Dois
Qual a profissão do seu pai? Falecido
Qual a profissão da sua mãe? Doméstica e trabalha no campo.
Dificuldades / facilidades da vida dos seus pais e outros assuntos: Foi uma vida muito difícil, principalmente para a minha mãe porque ficou viúva muito cedo.
O meu pai morreu quando eu tinha apenas 2 meses de vida e a minha irmã tinha apenas dois anos. Para ela nos criar não foi nada fácil porque não só tinha de fazer a vida do campo como também a vida de casa.
Vivia-se apenas dos rendimentos agrícolas que eram muito poucos, pode-se dizer que quase nenhuns. Algum dinheiro que a minha mãe adquiria era dos vitelos que vendia porque tinha quatro vacas. Era desse rendimento que se comprava vestuário e petróleo para as candeias, pois não havia luz elétrica nem água canalizada. Todas as pessoas da aldeia se abasteciam na mesma fonte, mas com a graça de Deus nunca passamos fome.
Quando eu era mais crescido, ou seja, com a idade de 6 anos, já ajudava a minha mãe. Ia para o monte com as vacas e regava o milho e as batatas com ela.   

A sua vida…
O Sr. nasceu no ano de? 1957
Nasceu em casa? Sim
Teve possibilidades de estudar? Sim.
Quantos anos frequentou a escola? Estudei até à 6º classe em Portugal. Mais tarde em Angola, continuei os estudos.
Onde estudou? Na minha aldeia até à 4º classe. A 5º e a 6º classe foram feitas numa aldeia próxima, em Sanguinhedo.
Seguiu a profissão do seu pai? Ou mãe?
Não. Apesar de ter trabalhado até aos 16 anos na agricultura. Mas depois fui para Angola trabalhar.
Por quê? Porque a agricultura não dava rendimento.
Escolheu a sua profissão livremente ou foi imposta pelos seus pais? Livremente. Gosto muito da minha profissão.
Como conseguiu os seus empregos?
Trabalhei na agricultura para ajudar a minha mãe. Aos 16 anos, fui para Angola trabalhar por convite do meu tio (irmão da minha mãe).
Aprendeu uma profissão? Sim, várias.
Qual? Mecânico de carros e máquinas pesadas.
Onde? Cabinda – Angola.
Em que local? Cabinda.
Foi aprendiz? Foi mestre? Fui aprendiz e anos mais tarde professor de mecânica.
Teve sempre a mesma residência ou mudou de lugar? Mudei de lugar.
Aos 16 anos fui trabalhar para Angola. Casei-me em Portugal e construi casa em Vila Real, aonde vivia quando vinha de férias de Angola.
Por que razão? Para conseguir um melhor salário.
Casamento? Sim
Profissão? Atualmente especialista de máquinas de petróleos.
Outro? Formador na área de mecânica petrolífera. 
Migração
Migrou para uma cidade? Sim.
Para qual? Cabinda por motivos profissionais. E para Vila Real, poucos anos após o casamento.
Por quê? À procura de uma vida melhor.
Foi fácil encontrar trabalho? Sim.
Quantos trabalhos teve nesse local? 3
A adaptação foi fácil ou difícil? Fácil.
O que recorda desse tempo?
Quando cheguei a Cabinda, eu tinha uma vida boa. O salário também era bom. Era cidade com muita vida, tinha muitos divertimentos durante a noite e fins-de-semana. 

Emigração
Emigrou para o estrangeiro? Sim, para Angola.
Quando? Dia 18 de Maio de 1973.
Por quê? À procura de uma vida melhor. 
Quantos anos aí ficou? 31 anos.
A adaptação foi fácil ou difícil? Fácil.
Quando regressou? Nunca regressei, apenas nas férias.
Nunca me arrependi de ter ficado em Angola. Ter-me-ia arrependido se tivesse voltado para Portugal.
Enviava correspondência à sua família? Sim.
Tem alguma carta desse tempo? Não.

Estado Civil
Quando era jovem, como se divertia?
Não havia grande tempo para divertimentos enquanto estive em Portugal, só depois que emigrei.
Quando era criança, escorregávamos pelos montes utilizando giestas.
Quando e como conheceu a sua esposa / seu marido? (trabalho, casualidade, vizinhança, família, amigos…)
Através de uma amiga, numa festa popular perto da minha terra natal.
Quando casaram? Em 22 de Janeiro de 1984.
Tem fotografias do seu casamento? Sim.
Pode mostrá-las? Sim.

Filhos
Número de filhos? Uma filha. 
Tem fotografias dos seus filhos pequenos? Sim.
Que estudos fizeram? Tirou o curso de Naturologia-Acupunctura. Atualmente está a tirar outro curso.
Guarda os seus diplomas? É ela que guarda os diplomas.
Que empregos tiveram? Desde que se formou, sempre trabalhou na área dela. Contudo, também ajudava a mãe.
Onde? Trabalhou fora de Portugal e atualmente em Lisboa, Tábua e Vila Real.

Práticas religiosas
Praticava / frequentava alguma religião? Sim.
Qual? Católico.
Andou na catequese? Sim.
Fez as comunhões? Sim.
Tem fotografias da sua comunhão solene? Não.
Fez o crisma? Sim.
Ia nas procissões? Não.
Pertenceu à fábrica da Igreja? Não.
Foi mordomo de alguma festa religiosa? Não.
Tem fotografias dessas festas? Não.
Pertenceu a algum grupo da Igreja (JAC, JOC, Cruzada, Lusitos, Legião Portuguesa, etc.) Não.

Memória do Passado
O que recorda de Portugal no período em que nasceu?
Muita miséria. As pessoas tinham muito pouco para viverem. Tudo o que tinham era do que cultivavam. 
Lembra-se como era a vida no período regime salazarista? Sim.
Acha que havia falta de liberdade? Sim, muita falta de liberdade.
E de oportunidades? Muito poucas oportunidades.
Os mais pobres tinham as mesmas oportunidades que os filhos “das boas famílias”? Não. Os mais ricos sempre tiveram mais oportunidades e ainda hoje isso acontece, infelizmente.
Como viveu esse período de repressão? Tinha uma vida normal pois não me metia na política. O facto de se viver muito longe de Lisboa, fez com que não se sentisse a repressão de uma maneira tão forte como em Lisboa.
Algum dia foi interrogado pela PIDE? Não.
Alguém da sua família foi interrogado pela PIDE? Não.
Que acontecimentos políticos, sociais vividos no país o marcaram mais?
Como estava a trabalhar fora do país, nunca fui afetado pelos acontecimentos políticos.
O poder era exercido pela Igreja? Os padres mandavam nas aldeias? Tinham alguma influência.
Lembra-se do pároco da sua aldeia? Sim.
Teatro? Música?
O teatro e a música desses tempos eram o trabalho.
Lembra-se das atividades desenvolvidas pela Casa do Povo da sua aldeia? Não havia Casa do Povo.
Os professores eram também pessoas com uma forte influência na comunidade. Como recorda os seus professores primários?
Eram bons e amigos dos pobres.
A mulher era autónoma? Tinha trabalho? Ou era doméstica? Doméstica e trabalhava no campo.

Opções políticas
Foi ativista político? Não.
Pertenceu a algum partido ou movimento? Não.
Esteve preso no Regime Salazarista? Não.
Participou em manifestações? Não.
Foi apoiante do Regime Salazarista? Não.
Pertenceu à polícia política de Salazar? Não.
Seguidor / admirador de Salazar? Não.
Seguidor / admirador de Marcelo Caetano? Sim.
Por quê?
Porque foi o Marcelo Caetano que levou o país à democracia e fez com que houvesse reformas para todos.

Guerra Colonial
Esteve na Guerra Colonial? Não. Mas vivi de muito de perto a revolução civil que aconteceu em Angola.
Em que colónia? Angola.
Em que data? 1973 a 75.
Lembra-se de algum episódio passado lá?
Lembro-me de muitas coisas de Angola, do antes e depois da independência.
Eu encontrava-me a viver com os meus tios, os quais me tinham mandado ir para Angola. Até essa altura (antes da independência) tudo foi muito fácil e eu tinha uma boa vida. Estudava à noite e trabalhava durante o dia. Aprendi a profissão de mecânico. Para mim foi um mar de rosas, nada me faltava.
De 1973 a 1974, eu trabalhava numa oficina de carros. De 1974 a 1975, eu trabalhei em outra oficina de máquinas pesadas. A partir de 11 de Novembro de 1975, data da independência de Angola, tudo se tornou num autêntico inferno, com as guerras entre os partidos existentes em Angola - F.N.L.A., de Holden Roberto, M.P.L.A. de Agostinho Neto e a U.N.I.T.A., de Savimbi.
Nessa altura, muitos países deram auxílio a Portugal para evacuar todos quantos dali quisessem sair. Mas em primeiro lugar era dada a prioridade às mulheres e crianças, só depois é que eram os homens.
Os meus tios saíram de Angola dois meses antes da Independência. Eles queriam que eu fosse com eles, mas resolvi ficar. Mais tarde arrependi-me por não ter saído também, mas já era tarde demais. Por ali aguentei naquele inferno. Quase todos os dias havia combates, onde milhares de pessoas perdiam a vida. Assisti sem querer, a vários episódios de combates e vi tanta gente a morrer à minha frente.
Havia guerra a toda a hora fora das cidades, e nas cidades, por vezes, havia uma pausa que nunca se sabia por quanto tempo. Por vezes, saia de casa e estava tudo calmo e horas depois ou minutos, tudo começava de novo, o que me fazia ir a correr para um lugar mais seguro e por vezes nesse lugar onde me encontrava a poucos metros, via gente a ser morta e sem poder socorrer ninguém.
São imagens que nunca esqueço mas com a graça de Deus nunca fui atingido. Além da guerra, havia falta de tudo – luz, água e comida. Cheguei a andar a comer só arroz durante sete meses sem mais nada; era arroz com arroz, sem temperos e sem mais nada pois não havia onde comprar nada. Tinha dinheiro mas não tinha era aonde comprar. A única coisa que ia conseguindo, era só arroz; se queria peixe tinha de o ir pescar mas também não tinha anzóis para pescar nem onde os comprar; além disso, também era perigoso ir à pesca porque estava muito sujeito a ser morto.
Mais tarde, em 1976, foram criadas as lojas do povo. A cidade foi dividida com diversas lojas; cada uma delas tinha um nome de um bairro ou de uma pessoa que fosse importante. Só podia comprar as coisas no bairro de onde pertencia; não se podia ir ao bairro dos outros nem os outros ao nosso. Existiam umas cadernetas, onde na primeira capa tinham os dados pessoais, por exemplo, nome, idade, se era casado ou solteiro. Só se podia comprar um pão por dia, 2 litros de azeite ao mês, 2kg de arroz... Tudo que se comprava era escrito na caderneta - o dia em que se fez compras. Depois só no mês seguinte é que se podia voltar a fazer compras. Sempre que uma pessoa ia fazer compras, eles iam ver se já tinha feito as compras daquele mês. Mas o problema que se encontrava, era quase sempre o mesmo - nunca havia nada na loja; por vezes ia comprar arroz ou batatas mas só havia feijão, então comprava só o feijão e era isso que comia e nada mais. Outras vezes, só arroz; com sorte, às vezes havia duas ou três coisas para comprar. Uma coisa que eu nunca consegui comprar, foi pão, pois nunca havia.
Tudo isto aconteceu até 17 de Fevereiro de 1977, data em que consegui emprego nos petróleos, na Cabinda Golf. Ali comecei a trabalhar nas máquinas de extração do petróleo. Após alguns anos de prática e cursos dados pela companhia e certificados de louvor passei a técnico de máquinas. Mais tarde, passei a chefe e ao mesmo tempo a treinar o pessoal natural de Angola na reparação e manutenção de máquinas.
Em Março de 2004 fui para a Nigéria, trabalhar para a mesma companhia. Lugar aonde ainda me encontro e com a qual estou muito satisfeito e por aqui penso ficar.
Acha que a guerra era necessária? Não.
Ou foi um erro e um flagelo para a juventude portuguesa? Foi um erro muito grande.
Ficou com traumas da guerra? Apenas com fracas imagens. 
Ficou a residir numa ex-colónia? Sim.
Constituiu lá a sua família? Não.
Por que motivo ficou lá? À procura de uma vida melhor.
Quando regressou? Só de férias. A primeira vez que vim de férias foi em 18 de Maio de 1978.
Como as mães viram a guerra colonial?
Viram a guerra como uma perda de vidas, em que muitas pessoas foram mutiladas para nada. Quando fiquei em Angola na altura da independência, para a minha mãe foi uma tristeza muito grande, pois pensou nunca mais me voltar a ver e eu pensei o mesmo. Fiz tudo isto a pensar na minha mãe porque a queria ajudar e sempre que podia lhe mandava dinheiro.
Durante este período era muito complicado enviar dinheiro para a minha mãe. Antes da independência, era fácil, bastava ir ao banco e eles faziam a transferência para Portugal, mas após a independência, eu ia até à alfândega e dizia que ia enviar roupa. Eles faziam a revisão de toda a roupa e quando eles mandavam fechar a mala, rapidamente eu colocava o dinheiro no meio da roupa, sem eles repararem.
Como aceitaram passivamente a ida dos filhos para a guerra?
Penso que ninguém aceitava ver os filhos partir para a guerra mas naquele tempo ninguém escapava porque era obrigatório. Alguns ainda fugiram para França mas muito poucos.
Eu tinha um tio, que era passador. Ele ajudou muitos jovens a escapar de irem para a guerra, pois arranjava-lhes forma de irem trabalhar para França. Ele passava-os na fronteira a pé e tinha outro amigo espanhol que o ajudava.
O que gostaria de dizer sobre esse enorme drama que atingiu Portugal nas décadas de 60 e 70?
Que tudo isto podia ter sido evitado. Portugal não devia ter dado tantas esperanças para quem por lá (Angola) andou. Disseram que as províncias ultramarinas eram nossas para depois chegarem a 1975 e imensas pessoas ficarem sem nada.
Foram milhares de jovens que perderam a vida e outros tantos que ficaram mutilados e muitos ainda que ficaram traumatizados.

Migrações
Ida da aldeia para a cidade? Sim. 
Qual? Vila Real.
Fixou-se em? Vila Real.
Casou? Sim.
Teve filhos? Sim. Uma filha.
Emigrou? Angola, Nigéria.

Comparação com o presente
Tudo mudou para melhor sem comparação alguma.
Atualmente, as pessoas têm melhores condições de vida. Têm água canalizada, luz, saneamento, telefone e antigamente era muito difícil alguém ter tudo isto.
As pessoas estão cada vez mais consumistas. Gastam imenso dinheiro em coisas desnecessárias. É um consumo exagerado. Compram imensos telemóveis sem terem necessidade.
Agora, as pessoas têm carros, antigamente tínhamos de andar a pé para chegar a qualquer lado. Quando andava na escola em Sanguinhedo, tinha de fazer todos os dias da semana, por volta de 4 km, quer fizesse sol ou chuva. Atualmente, as pessoas têm um conforto que nunca existiu no passado e estão constantemente a queixarem-se.
Há muita mais fartura agora. Há mais alimentos, assistência médica. Antigamente, o que tínhamos para comer, tinha de ser produzido por nós. Tínhamos de cultivar as terras. Atualmente, as pessoas fogem das terras. Todos quiseram ir tirar cursos e tiveram possibilidade de os tirar. Antigamente, era rara a pessoa que tinha a possibilidade de ir estudar.
No aspeto político: mudança da ditadura para a democracia.
Eleições, livres, partidos políticos, sindicatos, associações várias (consumidores, ecologistas, direitos humanos, etc.)
Atualmente temos mais liberdade, pois temos direito ao voto. Mas o que acaba por acontecer em Portugal, é que quem é eleito acaba por abusar do poder e não ter a menor noção de gestão financeira, levando o país a ficar cada vez mais endividado.
No aspeto económico: por um lado, melhores salários, melhores empregos depois do 25 de Abril, reformas para toda a gente até ao final do século XX.
Atualmente, os idosos têm uma reforma e direito a assistência médica gratuita e antigamente nada disso existia.
De uma forma geral, existem melhores condições.
Portugal, já passou por algumas fases. A fase em que recebeu muito dinheiro da união europeia e acabou por abusar e desperdiçar dinheiro.
Atualmente, por má gestão e por falta de consciência, Portugal encontra-se numa situação precária. Pois toda a gente acha que tem direito a ganhar mais do que o outro. Não há o menor bom senso. A responsabilidade está nas mentalidades das pessoas. E se estamos no estado em que estamos, deve-se à falta de formação moral e ética da população em geral.
O português sempre foi um ser insatisfeito e que não soube dar valor ao que tinha de bom. E só quando emigra, é que dá valor ao trabalho e aprende a respeitar o patrão e colegas de trabalho.
As pessoas deviam aprender a respeitar o seu trabalho e a ter uma maior dedicação ao seu trabalho. Sem esforço nada se constrói e esse é um problema da sociedade atual. Habituou-se ao que é fácil e sem sacrifício.
Não é necessário tirar um curso, para se conseguir crescer na vida. É preciso dedicação, esforço, honestidade em qualquer que seja o trabalho. Quando amamos o que fazemos e nos dedicamos ao nosso trabalho, conseguimos vencer.
Nas relações homem-mulher: mudança de papéis sociais, mulher trabalha fora de casa, reconhecimento e equiparação dos direitos sociais, etc.
O homem e a mulher têm um papel semelhante na sociedade atual.

terça-feira, junho 18, 2013

História de vida de Filipe Perpétua da Cunha

Entrevistado: Filipe Perpétua da Cunha
Entrevistador: Marco André Gomes Martins
Local da entrevista: Vila Real
Data da entrevista: maio de 2013

Filipe Cunha


Identificação:
Como se chama?
Nome: Filipe Perpétua da Cunha
Nasceu no dia … ano de      ?
Data de nascimento: 9 de julho de 1977
Idade: 35

Naturalidade:
Onde nasceu?
Local de nascimento: Miragaia, Porto (Hospital de St. António).
Lugar da residência atual coincide com o lugar de nascimento ou não? Por quê? Não, pois nasci no Porto, mas os meus pais não eram daquela cidade. Para além disso, aos 7 meses de idade fui para os EUA com os meus pais e regressei a Portugal aos 10 anos, mais propriamente a Castelo de Paiva. Agora resido em Vila Real, pois a minha vida profissional começou cá e, entretanto, casei cá.

Como era a sua família?
Número de irmãos: 3 irmãs e 1 irmão (todos meios irmãos e não criado com eles).
A sua família tinha uma alcunha? Não.

Vida dos pais:
Como se chamam ou chamavam os seus pais?
Pai: Abel Silva da Cunha.
Mãe: Maria Celeste Moreira Perpétua da Cunha.

De onde eram?
Local de nascimento do pai: S. Jorge, Arcos de Valdevez.
Local de nascimento da mãe: Fornos, Castelo de Paiva.

Sabe em que ano nasceram? Pai 1933; mãe 1939.
Sabe como eles se conheceram? Através de um irmão do meu pai e um irmão da minha mãe.
Em que ano casaram? 1976.

Tem alguma fotografia do casamento dos seus pais? Sim.
Onde ficaram a viver? Inicialmente, até emigrarem para os EUA, estiveram em Lisboa e depois Castelo de Paiva. Finalmente, o regresso a Castelo de Paiva.
Quantos filhos tiveram? 1
Qual a profissão do seu pai? Foi operário fabril nos EUA, mas antes disso havia trabalhado na restauração em Lisboa e no Porto.
Qual a profissão da sua mãe? Foi operária fabril nos EUA e posteriormente doméstica.

A sua vida
O Sr. nasceu no ano de ? 1977.
Nasceu em casa? Não.
No hospital? Na maternidade? Hospital de Santo António, no Porto.
Teve possibilidades de estudar? Sim.
Quantos anos frequentou a escola? 12 ensino básico e secundário mais 7 anos licenciatura (5 anos mais 2 de matrícula sem frequentar).
Onde estudou? Our Lady of the Assumption School (1º ao 4º ano), Peekskill New York, Escola Preparatória de Castelo de Paiva (5º e 6º anos), Escola Secundária de Castelo de Paiva (7º ao 12º ano) e Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Licenciatura pré-Bolonha).
Seguiu a profissão do seu pai? Ou mãe? Não.
Por quê? Porque tive a oportunidade de estudar e enveredar por aquilo que quis.
Escolheu a sua profissão livremente ou foi imposta pelos seus pais? Livremente.
Ou pelas circunstâncias da vida? A vida também me trouxe até aqui, pois a escolha de uma vida militar não correspondeu às expectativas. Assim, decidi estudar e escolhi Português-Inglês (ensino de) na UTAD por uma questão de conhecimento profundo de inglês e interesse pelo português, para além de uma paixão pela cultura e história.
Como conseguiu os seus empregos? Voluntariei-me para o exército aos 18 anos e fui recrutado aos 19. O meu estágio pedagógico integrado em Vila Real foi o 5º ano do meu curso. O emprego que tenho atualmente no WSI surgiu curiosamente de um encontro inesperado com uma antiga colega da UTAD no Lidl em Vila Real.
Aprendeu uma profissão? Não.
Teve sempre a mesma residência ou mudou de lugar? Sim, várias vezes.
Por que razão?
Casamento? Sim.
Profissão? Sim.
Outro? Emigração e posterior regresso a Portugal.

Migração
Migrou para uma cidade? Sim.
Para qual? Vila Real.
Por quê? Incorporação no exército.
Foi fácil encontrar trabalho? Felizmente e até hoje ainda não tive dificuldades.
Quantos trabalhos teve nesse local? 3
A adaptação foi fácil ou difícil? Fácil, mas o clima no início foi um pouco estranho.
O que recorda desse tempo? Regressar a casa. 

Emigração
Emigrou para o estrangeiro? Sim.
Quando? 1978.
Por quê? Fui com os meus pais.
Quantos anos aí ficou? 10 anos.
A adaptação foi fácil ou difícil? Era bebé por isso não tive dificuldades.
Quando regressou? 1987
Por que regressou? Vontade dos meus pais em me verem crescer em Portugal.
Não se arrependeu de voltar? Sim.
Por quê? Estava totalmente americanizado e o meu país era aquele. Os meus amigos estavam lá e tinha sérias lacunas no português.
Enviava correspondência à sua família? Sim, pois o meu pai continuou por lá emigrado.
Tem alguma carta desse tempo? Sim.

Estado civil
Quando era jovem, como se divertia? Com os amigos indo à discoteca, café ou um bar/pub.
Quando e como conheceu a sua esposa? (trabalho, casualidade, vizinhança, família, amigos…). Na escola onde leciono em 2008.
Tem correspondência do seu namoro? Não.
Tem fotografias tiradas durante o seu namoro? Sim.
Quando casaram? 29 de julho de 2012.
Tem fotografias do seu casamento? Sim.

Filhos:
Número de filhos? 0
Guarda os seus diplomas? Sim.

Práticas religiosas
Praticava alguma religião? Sim, mas pouco praticante.
Qual? Católico Apostólico Romano.
Andou na catequese? Escola católica nos EUA.
Fez as comunhões? Sim.
Tem fotografias da sua comunhão solene? Sim.
Fez o crisma? Sim.
Ia nas procissões? Não.
Pertenceu à fábrica da Igreja? Não.
Foi mordomo de alguma festa religiosa? Não.
Tem fotografias dessas festas? Não.
Pertenceu a algum grupo da Igreja? Não, mas fiz um “Convívios Fraternos”.
Tem fotografias dessas atividades? Sim.

Memória do Passado
O que recorda de Portugal no período em que nasceu? Não muito, só do que aprendi com a história, pois cresci nos EUA.
Lembra-se do pároco da sua aldeia? Sim.

Viveu alguma catástrofe natural (cheias, temores de terra, derrocadas, guerra, exílio, etc.)? Não.
Sofreu alguma experiência traumática? Sim.
Morte de um ente querido? Sim, o meu pai em 2009
Acidente? Fui atropelado nos EUA aos 5 anos.
Doença grave? Não.
Fez alguma loucura na sua vida? (Amor, negócios, aventuras, fugas, etc.) Não.
Tem alguma história em especial que nos queira contar?
Outros assuntos… Duas missões de manutenção da paz no estrangeiro: Kosovo 2000 (ao serviço da NATO) e Timor-Leste 2001-2002 (ao serviço da ONU).

Comparação com o presente
O que lhe parece que mudou? Não posso comparar.
Juventude: Como é ser jovem hoje?
Os mais jovens têm melhores condições de vida do que tiveram os seus pais? Sim ou não? Por quê?
Sim, antigamente as condições de vida eram muito diferentes. Generalizou-se aquilo a que apenas os mais abastados poderiam aspirar: mobilidade, conforto, progressão social, educação, alimentação e telecomunicações.
Têm dificuldades de encontrar o 1.º emprego? Por quê?
Não, pois voluntariei-me para o exército. Contudo, estive um ano à espera da minha incorporação.
Falta de políticas sociais de apoio aos jovens?
Não sou grande apologista de políticas sociais, pois tendo crescido nos EUA não as havia e, no entanto, as pessoas eram bem-sucedidas. Este modelo social europeu está, a meu ver, esgotado.

Necessidade de mais formação académica, profissional? Sim ou não? Por quê?
Sim, nem que não seja para emigrar.
Complexidade crescente do mundo laboral.
Concordo, pois há uma saturação de licenciaturas e uma economia sem capacidade de criação de empregos.
É mais fácil adquirir uma formação académica, mas é muito mais difícil conseguir um emprego.
Concordo.

quinta-feira, abril 11, 2013

História de vida de António Luís Parente Meixedo

Entrevistadora: Maria Olinda Rodrigues Santana (sobrinha)
Entrevistado: António Luís Parente Meixedo
Local da entrevista: Lugar de Campo Benfeito – Castro Daire (domicílio de férias da entrevistadora e do entrevistado).
Data da entrevista: nos dias 7 e 8 de agosto de 2012, das 15h às 18h.
Duração da entrevista: 5h, 2horas e meia no dia 7 e outras 2 horas e meia no dia 8.

António Luís Parente Meixedo, em Campo Benfeito, agosto de 2012

quinta-feira, maio 24, 2012

História de vida de Luísa de Brito

Entrevistadora: Ana Marisa Amaral Macieira
Entrevistada / colaboradora: Luísa de Brito



AMAM - Como se chama?
LB - Luísa de Brito.
AMAM - Data de nascimento?
LB - 14 de dezembro de 1924.
AMAM Onde nasceu? Local de nascimento
LB - Lugar do Assento, freguesia de Palmeira, Braga.
Vida dos pais
AMAM - Como se chamam ou chamavam os seus pais?
LB - Francisco Fernandes Aurtures? e Maria Teresa de Brito
AMAM - De onde eram? Local e data de nascimento?    
LB - Pai – Lugar da Póvoa, Campo da Aviação, Palmeira, nasceu em 1867.
LB – Mãe – Lugar da Portela, Palmeira, 29 de março 1892.
AMAM - Sabe como eles se conheceram?
LB - Não.
AMAM Em que ano casaram?
LB - Não me lembro.
AMAM - Onde ficaram a viver?
LB - Em Palmeira.
AMAM - Quantos filhos tiveram?
LB - Três, os outros dois eram mais velhos, mas morreram antes de eu nascer. Tinha outra irmã mas só da parte do pai e era muito mais velha do que eu, morava em Lisboa.
AMAM - Qual a profissão do seu pai?
LB - Era laborista (esculpia a pedra), trabalhava a pedra para as igrejas e assim.
AMAM Qual a profissão da sua mãe?
LB - A minha mãe vendia fruta, em Braga.
AMAM - Dificuldades e facilidades da vida dos seus pais e da sua?
LB - Não havia dinheiro, mas foi boa, cantava-se e dançava-se, não era como agora.
A sua vida
AMAM - A Sr.ª nasceu em que ano?
LB - Em 1924.
AMAM - Quantos anos frequentou a escola?
LB - Nenhum. Eu morava à beira da escola, mas nunca fui porque nunca ninguém se importou. Eu via-os a brincar no recreio e aprendia as cantigas todas que eles cantavam. Mas sei as horas, porque eu era pequena e tinha de olhar por uma criança doentinha e tinha de lhe dar os remédios, então ensinaram-me a ver as horas! E sei contar muito bem, sei fazer contas de cabeça e “antes” sabia a tabuada toda de cabeça. Diziam que eu era muito esperta e que se tivesse ido à escola tinha dado uma doutora!
AMAM - Onde trabalhou?
LB - Vendia fruta com a minha mãe. Levantava-me às 5h da manhã e íamos ao Alívio esperar as mulheres que traziam a fruta das aldeias, vinham do Pico dos Regalados, Amares, Vila Verde, vinham aos bandos a pé por ali fora. E de Braga ao Pico levava quase 3h de caminho! Depois do Alívio ia a pé até ao centro de Braga aos armazéns e à praça (mercado) para vender a fruta. Também havia os laranjais e eu e minha mãe comprávamos e fazíamos mais dinheiro se fosse assim. Fazíamos uma rodilha e levávamos os cestos à cabeça, pesavam muito era conforme as encomendas.
Duma vez a Sr.ª Mariquinhas Ferraz, que tinha um armazém ali na Sé, recebeu uma encomenda de laranja azeda para doçaria para Lisboa e pediu-nos para lhe arranjar. “Atão” nós fomos arranjá-la à Veiga de Penso (quase em Famalicão) e a senhora tinha dois quintais (120kg) ainda passava 5kg (um quintal = 60kg), ela ficou admirada com a encomenda porque ninguém queria a laranja azeda e vendeu-nos aquilo tudo por 15 escudos. Nós apanhamos as laranjas e com cada nosso quintal, a passar, à cabeça lá viemos para Braga. Depois ao vir para cá paramos na Tasca do Juca em Figueiredo, comemos cada uma nosso pedaço de toucinho cozido com pão de milho e uma caneca de vinho e depois seguimos para Sé, mas aquilo subia muito e lá tivemos de parar outra vez na Ponte de Pelames “para dar um ar”. Quando chegamos à Sé, a Sr.ª Mariquinhas Ferraz olhou para nós, tão carregadas, e ficou tão admirada que diz ela: “Não há pai para vós”!
Ora bem, passavam 5kg dos dois quintais mas ela lá ficou com tudo e pagou 215 escudos por as laranjas! Partimos 100 escudos para cada uma, tirando os 15 do “casco”. Foi um rico negócio! Eu tinha sorte com a Graça de Deus!
Emigração
AMAM - Emigrou para o estrangeiro?
LB - Não emigrei, mas tive para emigrar! Em Palmeira, havia uma família rica que gostava muito de mim, e eles tinham uma menina muito ?? e queriam-me levar para fazer companhia à menina, eu devia ter 9 anos mais ou menos, e eles cortaram-me o cabelo à “garçone”, que naquele tempo era moda, mas depois a minha mãe não me deixou ir.
AMAM - Quando era jovem, como se divertia?
LB - Era só cantar e dançar, até ao domingo eu ia para praça vender com a minha mãe e depois quando chegávamos lá andavam as bandas a tocar com o cavaquinho e era tão giro que andava tudo a dançar, era solteiras, casadas andávamos todas.
AMAM - Quando e como conheceu o seu marido?
LB - Não me lembro, eu sempre o conheci, porque ele era de Palmeira e as famílias ainda se pertenciam.
AMAM - Quantos filhos tiveram?
LB - Oito! Mas três morreram, dois eram gémeos e nasceram antes do tempo e morreram no dia em que nasceram e a Inês morreu com um ano e meio com uma pneumonia. Naquele tempo, morriam muitos bebés e em Agosto é que era uma “limpeza”, diziam que era por causa das vacas comerem carocha do milho (o tronco) e diziam que fazia mal ao leite e depois os bebés bebiam e depois morriam.
Práticas religiosas
AMAM - Pratica /frequenta alguma religião?
AMAM - Pratico, ainda hoje fui à missa!
AMAM - Qual?
LB - Sou católica!
AMAM Andou na catequese?
LB - Andei sim senhor.
AMAM - Fez as comunhões? Crisma?
LB - Fiz a primeira comunhão com 7anos, e a comunhão solene e o crisma no mesmo dia tinha eu 10 anos.
AMAM - Ia nas procissões?
LB - Ia, cheguei a ir de anjo, havia a Fé, a Esperança e a Caridade, e eu fui de Caridade.
AMAM - Pertenceu a alguma congregação da igreja?
LB – Não.
AMAM - Foi mordomo de alguma festa religiosa?
LB - Fui da festa de S. Romão (DATA), pagava 5 “merreis” naquele tempo! E Fui de Beijamina (     ), paguei 1 “coroa”.
Opções políticas
AMAM Foi ativista político?
LB - Eu não, nunca gostei dessas coisas.
AMAM - Pertenceu a algum partido ou movimento?
LB - Não.
AMAM - Esteve preso no Antigo Regime?
LB - Não.
AMAM - Participou em manifestações?
LB - Também não.
AMAM - Foi apoiante do Regime Salazarista?
LB - O Salazar não era boa pessoa, ele tinha tudo e ninguém podia fazer nada. Eu fui multada duas vezes por andar descalça, e andava descalça para não romper os socos, porque depois não tinha dinheiro para mandar pôr as solas. Da primeira vez não paguei porque paga-se no Governador Civil e ele cheguei lá e era um mar de gente num largo que lá havia em frente e o Governador Civil veio à porta e viu tanta gente tanta gente que mandou tudo embora disse assim: “está tudo perdoado”!
Da segunda vez tive que pagar. Não se podia fazer nada se visse um “pobrinho” a pedir mandava-o prender.
Quando o Salazar foi eleito as “parolas” do Pico vinham por aí abaixo em carroças a cantar todas contentes até à cidade:
“A chita da minha blusa já se não usa foi para lavar,
Não quero a tua riqueza, quero a pobreza do Salazar!
A chita da minha blusa já se não usa foge demónio,
Não quero a tua riqueza quero a pobreza do meu António!”
Vinham contentes, se elas soubessem o que lhes ia “carregar” em cima!
AMAM - Pertenceu à polícia política de Salazar?
LB - Não senhor!
AMAM - Seguidor / admirador de Salazar?
LB - Não, eu não gostava dele.
AMAM - Seguidor / admirador de Marcelo Caetano?
LB - Também não.
AMAM - Por quê?
LB - Porque não gostava dele e não gostava dessas coisas.
AMAM - Viveu alguma catástrofe natural (cheias, temores de terra, derrocadas, guerra, exílio, etc.)?
AMAM - Tremor de terra e ciclone.
AMAM - Sofreu alguma experiência traumática?
LB - O primeiro ciclone que vi tinha eu 10 anos (1934), andei para aí 15 dias a tremer!
AMAM - Acidente?
LB - Tive há 4 anos quando ia num passeio com o centro social o “chaufer” esbarrou-se mas não me aleijei!
AMAM - Doença grave?
LB - Tive um derrame cerebral.
AMAM - Como encarou essa situação?
LB - Como um milagre, até a minha médica disse que foi um milagre.
AMAM - Fez alguma loucura na sua vida? (Amor, negócios, aventuras, fugas, etc.)
LB - Eu não.

Entrevista realizada dia 4 de abril de 2011, em Braga.

sexta-feira, abril 20, 2012

História de vida de Filomena Fonseca Alves

Filomena Fonseca Alves


Em França nascia o sol e aqui punha-se a luaAu Revoir Portugal!

Joana Dias - Como se chama?
Filomena Fonseca Alves - Filomena Fonseca Alves.
J - Quando nasceu?
F - 10 de Outubro de 1965.
J - Quantos anos tem?
F - 45 anos.
J - Onde nasceu?
F - Regadas, Fafe.
J - Lugar da residência atual coincide com o lugar de nascimento ou não? Por quê?
F – Não, porque fui trabalhar para outros sítios e depois, como o meu marido era de Felgueiras, depois do casamento mudei-me para lá
J - Quantos irmãos teve?
F - Tive quatro: três irmãs e um irmão.
J - A sua família tinha uma alcunha?
F - Tínhamos, chamavam-nos de Vitorinos.
J - E por quê?
F - Não sei porquê esse nome, mas sei que o nome veio da família do meu pai.
J - Como se chamam ou chamavam os seus pais?
F - Pai: José Maria Fonseca Alves
F - Mãe: Maria de Lurdes Alves Fonseca
J - De onde eram?
F - Local de nascimento do pai: Lugar da Trofa, Pombeiro - Felgueiras
F - Local de nascimento da mãe: Regadas – Fafe.
J - Sabe em que ano nasceram?
F - Não me lembro do ano certo, mas sei que foi pela década de 30.
Maria de Lurdes Alves Fonseca nasceu no ano de 1934.
J - Sabe como eles se conheceram?
F - A minha mãe estava em Felgueiras a servir e como o meu pai era de lá eles conheceram-se. Namoraram durante nove anos, entretanto zangaram-se durante três anos e depois voltaram a namorar, mas casaram tarde para a altura, porque a minha mãe já casou com 26 anos.
J - Essa expressão de “estar a servir” não se costuma ouvir hoje em dia, o que quer dizer?
F - Mas dantes usava-se muito e as pessoas mais velhas ainda usam, a minha mãe foi trabalhar para casa de um casal que tinha possibilidades para ter uma empregada e a minha mãe fazia tudo o que era preciso fazer e também tomava conta dos filhos dos patrões. Tinha que limpar, cozinhar e tudo o que fosse preciso fazer.
J - Em que ano casaram?
F - Casaram no ano em que a minha irmã mais velha nasceu, portanto foi em 1960. Não me lembro do dia, mas lembro-me de a minha mãe me contar que casaram às sete da manhã no Mosteiro de Pombeiro e que depois almoçaram massa com feijão.
J - Tem alguma fotografia do casamento dos seus pais?
F - Não, naquele tempo não tinham dinheiro e o casamento foi mesmo muito simples.
J - Onde ficaram a viver?
F - Depois de se casarem foram morar para a casa da minha avó materna em Regadas, agora mora lá uma senhora que depois dos meus avós morrerem compraram a casa, mas ela continua igual, porque não mudaram a fachada.
J - Quantos filhos tiveram?
F - Tiveram quatro raparigas e um rapaz, eu sou a terceira mais velha.
J - Qual a profissão do seu pai?
F - Era sapateiro, mas depois nos anos 60 foi para França e lá trabalhava nas obras.
J - Qual a profissão da sua mãe?
F - A minha mãe tirava areia do rio com um rodo para as casas, trazia a areia para a estrada num cesto e ia lá um trator buscar. Quando era ainda nova, no fim da escola chegava a ir muitas vezes ter com ela para ajudá-la a levar os cestos com areia para a estrada.
J - O que é um rodo?
F - Um rodo é tipo um engaço com uns furos e pesado para conseguir ir até ao fundo e depois puxar a areia para as bermas. Aquilo era tapado e só tinha os buraquinhos para a água sair e puxar só a areia.
J - A sua família passava por dificuldades?
F - O meu pai faleceu quando eu tinha dezoito anos e como ele foi para França e vinha poucas vezes a casa sempre tive pouco contacto com ele, mas a minha mãe diz que comida nunca faltou. Era uma casa onde se matava o porco e tínhamos galinhas. O conforto não era muito, mas comida havia sempre.
J - Nasceu em casa ou no hospital?
F - Em casa.
J - Mas houve a assistência de alguém com habilitações para fazer um parto?
F - Não, nós chamávamos-lhe uma habilidosa, era uma pessoa que tinha jeito para fazer partos e fazia os partos todos da aldeia. Só o meu irmão mais novo é que nasceu no hospital, eu e o resto das minhas irmãs nascemos todas em casa.
J - Teve possibilidades de estudar?
F - Não, quer dizer, estudei até à quarta classe, mas porque era obrigatório porque se não fosse se calhar nem tinha ido para a escola.
J - Quantos anos frequentou a escola?
F - Estive cinco anos, reprovei na terceira classe ,mas foi porque nunca tinha tempo para estudar porque logo que chegava da escola tinha que ir ou cavar o terreno que tínhamos, ou ir ao monte buscar lenha ou tinha que ir ajudar a minha mãe. No verão, como o tempo era mais quente eu e as minhas irmãs acordávamos às cinco ou seis da manhã, antes de irmos para a escola, para irmos buscar pinhas ao monte.
J - Onde estudou?
F - Estudei na escola de Regadas, na aldeia onde nasci.
J - Seguiu a profissão de algum dos seus pais?
F - Segui a da minha mãe, porque a minha primeira profissão também foi ir servir para casa de uma prima.
J - Escolheu a sua profissão livremente ou foi imposta pelos seus pais ou pelas circunstâncias da vida?
F - Foram as duas coisas, porque eu comecei a trabalhar logo que saí da escola e ainda era uma criança e não sabia o que era melhor para mim, mas também tinha de ir trabalhar para ajudar em casa, porque os meus pais não tinham possibilidades.
J - Como conseguiu os seus empregos?
F - Foi através dos meus pais, porque fui servir para uma prima. Logo no dia depois de eu acabar a quarta classe os meus primos foram buscar-me a casa para eu ir trabalhar para casa deles, porque eles tinham um filho pequeno e como trabalhavam numa fábrica precisavam que alguém tomasse conta dele. Eu lembro-me que chorei muito, porque não queria ir e então a minha mãe pediu ao meu pai para me deixar ficar mais uns dias em casa. Entretanto passado uma semana, eles foram buscar-me e foi a primeira vez que eu saí de casa, porque eles eram de Felgueiras e eu ficava lá em casa deles a dormir, só vinha ao fim de semana a casa, tinha eu dez anos.
J - Aprendeu uma profissão?
F - Não porque eu estive sempre a servir em casa de pessoas e o que tinha que fazer eram sempre coisas que fazia em casa desde pequena.
J - Teve sempre a mesma residência ou mudou de lugar?
F - Mudei quando tive o primeiro trabalho que era em Felgueiras, mas não fiquei muito tempo lá, porque os meus patrões não eram meus amigos e não me tratavam muito bem. Quando me fui embora a minha prima até me obrigou a devolver-lhe umas meias que me tinha dado, porque se me ia embora não podia ficar com elas.
Depois, quando já tinha 11 anos fui servir para uma senhora que era enfermeira que morava perto de minha casa, mas dormia em casa dela, não ia para casa. Essa senhora era muito minha amiga, ainda me lembro do nome dela, chamava-se dona Rosa.
Quando voltei para Portugal fui morar para a minha aldeia com a minha mãe e as minhas irmãs, mas quando me casei mudei-me para Felgueiras porque o meu marido é de cá.
A grande mudança foi mesmo quando fui para França, porque andei sempre entre Felgueiras e Fafe que são à beira uma da outra.
J - Emigrou para o estrangeiro?
F - Sim, para França
J - Quando foi?
F - Fui no início setembro de 1977, porque lembro-me que quando fiz doze anos já estava em França. Foi também quando tirei as minhas primeiras fotografias daquelas de passe, porque era preciso para o passaporte.
J - Por quê?
F - À beira da senhora onde eu estava a servir, da dona Rosa, havia uma loja de retalhos de tecidos, e a dona da loja, que se chamava Miquinhas, tinha uma sobrinha que estava em França que precisava de uma empregada, porque deixar os filhos no infantário lá ficava mais caro e então a dona da loja como me conhecia perguntou-me se eu queria ir para França trabalhar e resolveu tudo em 15 dias.
J - O que acharam os seus pais de ir para tão longe?
F - O meu pai tinha estado em França também, na altura, já tinha voltado de vez, mas ele incentivou-me porque dizia que era um país bom e que ia ganhar mais.
J - Quanto ganhava lá?
F - Lá ganhava seis contos por mês e aqui ganhava mil escudos, era uma diferença muito grande. Mas eu não recebia o dinheiro, porque a minha patroa mandava o dinheiro para os meus pais. Uma vez o meu pai mandou uma carta à minha patroa para lhe mandar seis meses adiantados, porque precisava de comprar uma motosserra.
J - Mas se não recebia nada do ordenado, como fazia se precisasse ou quisesse comprar alguma coisa?
F - Eu ainda era uma criança e morava com os meus patrões, eles davam-me roupa quando precisava e eu nunca saía de casa, quando saía era com eles ou para ir comprar pão de manhã e para ir levar os dois filhos dos meus patrões à escola.
J - Foi sozinha para França?
F - Não, a sobrinha da Miquinhas veio buscar-me a Portugal e foi ela que pagou o passaporte, porque os meus pais não tinham possibilidades, fomos de comboio e demorámos dois dias a chegar, ela morava em Paris. Foi a primeira vez que andei de comboio e lembro-me que até tinha camas no comboio.
J - Quantos anos aí ficou?
F - Fiquei quase sete anos.
J- A adaptação foi fácil ou difícil?
F - Não foi fácil. Quando cheguei lá era tudo estranho para mim. Fui morar para um prédio com quinze andares, nós morávamos no quarto andar e as pessoas eram muito diferentes das da minha aldeia. Só naquele prédio havia todo o tipo de gente, chineses e marroquinos, por exemplo. Mas eu também não saía muito porque eu também não sabia falar francês e não falava com ninguém.
Passei lá os natais todos, só vinha a casa em agosto e não vim todos os anos, porque eu nem estive no casamento da minha irmã mais velha, porque estava ainda em França e não tinha dinheiro para vir e quando o meu irmão mais novo nasceu também estava lá e só o conheci mais tarde.
J - Fez alguma amizade enquanto estava em França?
F - Não, eu sentia-me muito sozinha lá, muitas vezes passava as noites a chorar, porque não tinha lá ninguém e nem tinha tempo para passear, passava o dia a trabalhar e quando saía era sempre com os meus patrões. Ainda cheguei a conhecer uma senhora que era de Castelo Branco que morava no mesmo prédio que eu, no décimo segundo andar, e como ela era doméstica ia levar os filhos à escola e eu ia às vezes com ela levar os filhos dos meus patrões e era a única pessoa com quem eu falava mais.
J - Lembra-se do nome dessa senhora?
F - Lembro, chama-se Carminda.
J - Quando regressou?
F - Voltei quando tinha dezoito anos, em 1983.
J - Depois de voltar manteve contacto ou voltou a falar com a senhora Carminda?
F - Não, ela ficou lá e deve ter feito a vida dela lá, porque já tinha dois filhos que andavam lá na escola e nunca mais soube nada dela.
J - Por que regressou?
F - Nunca gostei de estar lá e, na altura, os meus patrões tinham que me fazer os papéis para eu ficar legal só que como eles não queriam essa responsabilidade e eles também nunca foram meus amigos.
J - Não se arrependeu de voltar?
F - Eu gostava de Paris, mas não me arrependi de voltar, porque estava longe de toda a gente e foi muito duro. Eu passava os domingos no meu quarto a ler e reler as cartas que a minha mãe e as minhas irmãs me mandavam, porque as saudades eram muitas.
Eu sentia muito a falta deles, estava muito tempo sem os ver até porque dez dias depois de eu voltar de França o meu pai faleceu com 49 anos.
J - E guardou alguma dessas cartas?
F - Não, acho que deitei fora quando voltei de lá.
J – É casada?
F – Sim.
J – Como se chama o seu marido?
F- José Isménio Ferreira Dias.
J- Quantos filhos tem?
F – Duas filhas, uma com vinte e três e outra com doze anos. A mais velha chama-se Joana Dias e a mais nova Ana Margarida Dias.
J - Quando era jovem, como se divertia?
F - Nunca brinquei nem me diverti, sempre que chegava a casa da escola tinha que ir logo ajudar na casa ou no terreno que tínhamos. Na minha aldeia, havia o S. Francisco mas o meu pai nunca nos deixava ir, ficávamos sempre em casa.
Quando fui para França ia às vezes sair com os meus patrões ao fim de semana àquelas festas de emigrantes, mas eu não me lembro muito bem, porque era novita. Lembro-me que uma vez vimos a Linda de Suza, uma que cantava a mala de cartão, na altura era muito conhecida. Ela até chegou num helicóptero, era muito famosa na altura. Mas na maioria das vezes punha-me na janela do meu quarto a ver a Torre Eiffel, dava para ver de lá e eu ficava admirada com um monumento tão grande.
J - Quando e como conheceu o seu marido?
F - Por acaso é uma história engraçada, porque nós vimo-nos pela primeira vez quando eu tinha onze que foi quando vim trabalhar para Felgueiras e ele engraçou comigo, porque ele até andava assim atrás de mim só que depois eu saí daqui e fui trabalhar para a minha terra e nunca mais o vi. Depois só nos voltámos a encontrar quando eu já tinha dezanove anos, em 1984, e fui trabalhar para um fábrica de calçado em Felgueiras, depois de voltar de França.
A minha irmã mais nova trabalhava na mesma fábrica que eu e nós íamos para o trabalho de camioneta e depois para voltar ao fim do dia tínhamos que esperar uma hora pela camionete. O meu marido andava por lá, até na altura andava com uma rapariga que era da minha aldeia e depois ele voltou a conhecer-me, depois de tantos anos e voltou a engraçar comigo.
J- Tem correspondência do seu namoro?
F - Não, nós nunca chegámos a trocar cartas.
J - Tem fotografias tiradas durante o seu namoro?
F - Não chegámos a tirar nenhuma fotografia juntos enquanto namorávamos.
J - Quando casaram? Onde?
F - Nós começámos a namorar em setembro de 1984 e casámos a 18 de agosto de 85. Casámos na Igreja de Santo Estevão na freguesia onde nasci, em Regadas (Fafe).
J - Onde ficaram a morar?
F – Fomos morar para a terra do meu marido e ficámos a viver na casa dos meus sogros em Felgueiras na freguesia de Pombeiro de Ribavizela.
J - Praticava ou frequentava alguma religião?
F - A minha família era toda católica e eram muito religiosos. Quando era pequena ia sempre à missa todos os domingos. Depois do meu pai falecer a minha mãe até começou a ir à missa todos os dias, só não ia se não houvesse.
J - Andou na catequese?
F - Andei, mas só até à primeira comunhão, já não fiz comunhão solene nem crisma, fui trabalhar ainda nova e deixei de ir por causa do trabalho. Mas tenho uma foto da primeira comunhão, porque até quem foi a minha madrinha foi uma vizinha que era solteira e eu gostava muito dela.
J - Participava nas festas da paróquia da sua aldeia?
F - Sim, em Regadas ainda se festeja o S. Francisco e eu ia sempre na procissão vestida de anjinho, só deixei de ir depois que deixei a escola e fui trabalhar.
J - E participou em mais alguma atividade que estivesse relacionada com a igreja?
F - Chegava a ir a novenas, acho que agora isso já nem se faz.
J - O que eram essas novenas?
F - Novenas lá era uma pessoa que fazia uma promessa e tinha que levar nove pessoas com ela e ir a pé a algum lado, por exemplo, ir de Regadas à Santa Quitéria, que ficava em Felgueiras. O nosso vizinho uma vez até fez uma promessa dessas e andava a perguntar às crianças para irem com ele à Santa Quitéria, mas nós nem queríamos ir porque nós tínhamos medo dele por causa do vizinho ser coveiro.
J - Pertenceu a algum grupo da Igreja?
F - A minha mãe chegou a pertencer ao Grupo dos Franciscanos que havia e ainda há em Regadas mas eu, mesmo que quisesse, não podia porque era só para pessoas mais velhas e antes de eu crescer saí logo de casa para ir trabalhar.
J - O que recorda de Portugal no período em que nasceu?
F - Lembro-me de pouco, sei que havia muita miséria e que não havia a fartura que se vê hoje em dia. Na minha casa nunca se passou fome felizmente, mas também nunca tivemos muita coisa. Ainda me lembro que no natal as prendas que tinha era uma laranja e um chocolate pequenino, às vezes só a laranja ou duas tangerinas.
J - Lembra-se como era a vida no período regime salazarista?
F - Na minha aldeia não se falava muito da ditadura nem da PIDE, mas lembro-me que toda a gente ficava cheia de medo sempre que via a polícia. Eu até me lembro de quando era pequenita e via a polícia ia logo esconder-me, porque tinha medo deles.
Eu até me lembro que a minha irmã mais nova reprovou dois anos na escola, mas como tinha muito medo dos meus pais, principalmente do meu pai, disse-lhes que tinha passado e atirou com os livros ao rio. Só que quando começaram as aulas ela não voltou para a escola, e era obrigatório fazer a quarta classe, a polícia foi lá a casa e nós escondemo-nos todas debaixo da cama. Ela lá teve que voltar para a escola e os meus pais tiveram que comprar outros livros.
J - Acha que havia falta de liberdade?
F - Eu acho que as pessoas na altura tinham tanta miséria que nem pensavam muito nisso, tinham era de trabalhar para conseguir sobreviver.
J - E falta de oportunidades?
F - Claro que havia, eu e as minhas irmãs só andámos na escola, porque era obrigatória, se não fosse assim nem à escola tínhamos ido.
J - Os mais pobres tinham as mesmas oportunidades que os filhos “das boas famílias”?
F - Claro que não, eu quando tinha uns sete anos até cheguei a dizer que queria ser filha de uma pessoa lá da aldeia que vivia melhor que nós, porque apesar de nunca ter passado fome sempre tivemos que trabalhar muito para conseguir alguma coisa.
J - Sabia o que era a PIDE ou chegou a ouvir falar dela?
F - Ouvia-se falar mas que eu saiba a PIDE nunca esteve por lá, até porque a minha aldeia era um meio muito pequeno. Só se falava na polícia. Só que a polícia daquele tempo não é como a de agora, toda a gente tinha medo deles.
J - Que acontecimentos políticos, sociais vividos no país o marcaram mais?
F - Lembro-me que era obrigatório ir votar. A minha mãe esteve internada e foi uma ambulância buscá-la para ela ir votar porque era obrigatório.
Como fui para França não sabia de quase nada do que ia acontecendo em Portugal, mas lembro-me de estar lá e de saber da notícia da morte do Francisco Sá Carneiro. Na altura devia ter uns catorze ou quinze anos e não percebia muito bem mas lembro-me de toda a gente ter ficado em choque com a morte dele.
J - Tem alguma recordação do 25 de Abril?
F - Não, nós nem televisão tínhamos. Havia uma taberna em nossa casa que era o único sítio onde havia televisão e quando acontecia alguma coisa íamos a correr lá ver. Lembro-me que na altura se cantava muito aquela música do Zeca Afonso e eu cantava a música todos os dias, mas ainda só tinha nove anos e não percebia o significado.
J - Lembra-se do pároco da sua aldeia?
F - Lembro, chamavam-lhe Padre Agostinho só que ele fugiu, já não me lembro como foi essa história e depois foi para lá o Padre Manel que foi o padre que me casou.
J - O padre da paróquia tinha muita influência na aldeia?
Tinha muito poder sim, na altura era obrigatório ir à missa. Se nós não fossemos era porque os pais não nos estavam a dar uma boa educação. Nós chegávamos a ir à missa das seis da manhã aos domingos para depois irmos trabalhar no terreno em casa.
J - A paróquia desenvolvia algumas atividades?
F - Só faziam uma procissão na altura do S. Francisco em junho, de resto era sempre só a missa.
J - Lembra-se das atividades desenvolvidas pela Casa do Povo da sua aldeia?
F - A Casa do Povo da minha aldeia só era para dar consultas ou para ir apanhar injeções, que me lembre não faziam mais nada.
J - Os professores eram também pessoas com uma forte influência na comunidade. Como recorda os seus professores primários?
F - Eu tive duas professoras. Uma era a dona Emília, era muito má, batia-nos por qualquer coisa, andava sempre com a régua, eu chegava muitas vezes a casa com as mãos a fumegar. A outra tive pouco tempo, acho que só no último ano, já não me lembro do nome dela, mas já não era tão má como a primeira. Eu também não me lembro de muita coisa, nunca tinha tempo para estudar.
J - O chefe da família era o dirigente da casa?
F – Sim, mas só quando o meu pai vinha cá de França, ele só vinha uma ou duas vezes por ano.
J - A mulher tinha os mesmos direitos que o marido? Ou não?
F - Nem pensar. Se o meu pai dissesse que não a minha mãe não dizia mais nada. O meu pai até era muito mau para nós e batia-nos muitas vezes, às vezes a minha mãe tentava-nos proteger mas ela não mandava e o meu pai fazia o que queria.
J - O marido era fiel à esposa ou não?
F - Não sei mas na altura não se falava muito disso, acho que se escondia também muita coisa.
J - A mulher era autónoma? Tinha trabalho? Ou era doméstica?
F - A minha mãe, por exemplo, trabalhava mas o que ela ganhava não dava para quase nada, depois quando o meu pai foi para França ela acabou por ficar em casa a tomar conta de nós.
J - Os casais usavam métodos anticoncecionais ou não? Por quê?
F -Não, na altura nem se ouvia falar disso, pelo menos não no nosso meio.
J - Havia muitos abortos naturais e muita mortalidade infantil? Sabe por quê?
F - Havia alguma até na minha aldeia, cheguei a ir a muitos funerais de crianças vizinhas, já não sei como, mas deve ter sido com alguma doença como meningite.
Lembro-me até de ser ainda criança e de ficar assustada com aqueles caixões pequeninos brancos.
J - Sofreu alguma experiência traumática?
F - O meu pai sempre foi uma pessoa muito severa. Sempre achei que ele não gostava de nós, a minha irmã mais velha contou-me uma vez que chegou a ouvi-lo dizer que não gostava de nós. Depois como ele foi para França e vinha a Portugal poucas vezes estávamos poucas vezes com ele e depois ele batia-nos muito sem razão. A minha mãe tentava sempre defender-nos, mas ela também não podia fazer muito porque não mandava. Ele não era uma pessoa carinhosa, nunca cheguei a saber o que é um gesto de carinho dele. O meu pai só tinha mais carinho pelo meu irmão mais novo, talvez por ele ser o único rapaz e nós as quatro sermos raparigas.
J - Algum ente querido seu faleceu?
F - O meu pai faleceu com tuberculose aos quarenta e nove anos, dez dias depois de eu voltar de França de vez para Portugal. Foi um choque para mim porque era o meu pai, mas a verdade é que nunca convivi muito com ele, porque quando ele voltou de França, fui eu que fui para lá trabalhar.
J - Fez alguma loucura na sua vida?
F - A vida não me deu possibilidades de fazer nenhuma loucura, mas eu ir para França ainda uma criança pode ser uma loucura, só que fui trabalhar e não passear.
J - Tem alguma história em especial que nos queira contar?
F - Bem, eu era uma criança muito rebelde, gostava de subir aos castanheiros, na época das castanhas e sempre que vinha da escola subia a um castanheiro e ia a comer castanhas até casa. Só que uma vez eu pendurei-me numa daquelas camionetes da carreira que tinha umas grades atrás e ia assim muito tempo, só que a camionete travou de repente e eu caí e estive na cama durante quinze dias, porque não conseguia andar, tinha que ir um enfermeiro a casa curar-me, ainda tenho a cicatriz na perna direita.
Lembro-me também que, quando voltei de França, e fui trabalhar para Felgueiras, no fim do trabalho eu e a minha irmã íamos a pé para casa para poupar o dinheiro da camionete e demorávamos quase três horas a chegar a casa porque ainda era muito longe.
Há outra história engraçada. Na altura dos reis, quando voltava da escola, cantava sozinha os reis pelas casas todas para juntar dinheiro para poder comprar rebuçados. E então lá andava eu de porta em porta a cantar sozinha, mas davam-me sempre alguma coisa e eu lá podia comprar os rebuçados.
Comparação com o presente
J - O que lhe parece que mudou a nível político?
F - Mudou tudo, antes não se ouvia falar tanto em política e muito menos em partidos como agora, eu era nova no tempo do Salazar, mas lembro-me que não se falava em política e nem as pessoas se interessavam tanto, pelo menos na minha aldeia não.
J - E a nível económico?
F - É muito melhor agora. Eu tenho agora a vida que não tinha em criança e que os meus pais nunca tiveram. São dois mundos completamente diferentes.
Eu lembro-me que, como era a que tinha mais força de todas as irmãs era a que ia mais vezes ao monte buscar lenha e a minha mãe às vezes dava-me cinco coroas por causa de a ajudar. Eu pegava nesse dinheiro ia à mercearia comprar tulicreme e comia aquilo tudo na escola e era como se tivesse uma prenda. Hoje em dia não há necessidade disso porque há muita fartura.
J - Acha que é mais fácil conseguir emprego agora ou antes?
F - Antes era mais fácil encontrar trabalho, mas as pessoas também iam trabalhar para qualquer coisa que lhe desse dinheiro para sobreviverem, acho que o grande problema de hoje em dia é não haver espírito de sacrifício.
J - No aspeto familiar, como vê o aparecimento de novas formas de família, como por exemplo pais solteiros, divorciados, etc.?
F - Na altura não se falava de divórcio sequer na minha aldeia. Era como se fosse um grande pecado, mas acho que agora as pessoas estão mais abertas para isso mas na minha aldeia não se vêm casos desses.
J - Como vê a relação entre homem e mulher atualmente?
F - Agora não tem nada a ver com o que era antes, por exemplo, a relação que eu tenho com o meu marido é completamente diferente da dos meus pais. O meu pai é que mandava em tudo e quando ele dizia alguma coisa ninguém podia contrariar. Agora as coisas estão diferentes e acho que a mulher é mais importante.
J - O que acha que mudou mais desde os seus tempos de criança, até agora?
F - É difícil dizer isso porque quando penso em quando era pequena e como era a minha aldeia e as pessoas que moravam lá. É como se fosse um mundo diferente do que há hoje. Mas acho que o que mudou mais foram as oportunidades e a miséria, acho que as pessoas já não passam tanta dificuldade como antigamente.